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O trabalho da documentação no Museu Casa de Portinari: o coração da instituição

O trabalho do Museu Casa de Portinari é estruturado por meio de programas que compõem o Plano de Trabalho[1], documento norteador que encadeia os programas a serem desenvolvidos em estreita relação com o Plano Museológico[2] da instituição. Nesse sentido, não acidentalmente, a estrutura desse Plano de Trabalho se alinha aos programas institucionais pré-estabelecidos e legitima e fomenta a execução das ações dos mesmos. Desse modo, o trabalho do setor de documentação do museu tem suas atividades respaldadas pelo Programa de Acervo[3] e sua existência é ponto essencial para o funcionamento da instituição como um todo.

Museus são como icebergs: muitas vezes o público consegue enxergar apenas a parte que se encontra claramente emergida, mas existe um trabalho muito extenso além do campo de visão, que alimenta e é alimentado pelas demais áreas do museu. Apesar da existência de palestras, oficinas e visitas técnicas que aproximam o visitante da área debackstage, a documentação naturalmente ainda se insere dentro desse campo menos acessível àqueles que frequentam os espaços museológicos. No entanto, os resultados da atuação desse setor são perceptíveis e estão diretamente ligados ao recebimento do público visitante presencial e virtual. Renata Padilha (2014, p. 13)[4], afirma que é do documento que se extrai a informação e que é a partir das atividades de “selecionar, pesquisar, interpretar, organizar, armazenar, disseminar e comunicar” que as instituições que lidam com a informação museológica conseguirão desenvolver as atividades do setor e cumprir o seu papel institucional.

Como “seleção” considera-se o recorte histórico que pertence a determinado museu. Para tal, é fundamental que o setor de acervo esteja provido de uma política de acervo que norteará a entrada (ou recusa) de objetos museológicos na coleção. A documentação atua no sentido de levantar informações acerca de determinados objetos para prover uma correta incorporação (ou se for o caso, desvinculação) de bens da coleção. Nesse âmbito, o Museu Casa de Portinari segue as orientações da UPPM, as quais estão alinhadas com as propostas da norma Spectrum 4.0[5]. Documentos que podem fazer parte dessa área são fichas de entrada, laudos de conservação, carta de intenção de doação, termos de doação ou nota fiscal de compra.

As atividades de pesquisa e interpretação estão interligadas e são respaldadas pelos processos documentais da fase de seleção. Enquanto a pesquisa permite o aprofundamento de informações acerca da origem, do uso e da história em si do objeto, a interpretação – que não é um fim em si próprio, mas que se desdobra da pesquisa – permite a ressignificação do objeto a partir do entendimento da ligação deste com a coleção e, no caso do Museu Casa de Portinari, com a edificação em que está inserido. Essa atividade é desenvolvida em parceria com a curadoria do museu e toda essa gama de informação necessita ser devidamente registrada e conectada aos demais pontos levantados acerca dos objetos e que são registrados em livros-tombo, fichas catalográficas, bancos de dados e acomodados em arquivos físicos e digitais.

A organização e armazenamento documental devem seguir a realidade da instituição. É importante que o equipamento adote sistemas que facilitem a recuperação de informações. No Museu Casa de Portinari as informações são organizadas em meio físico (fichas documentais que contêm todas as informações relacionadas ao objeto) e digital (banco de dados, planilhas e pastas com arquivos digitalizados). É trivial, por motivos de segurança, que esses dados sejam replicados em locais diferentes. Nesse sentido, o museu utiliza servidor em espaço separado da documentação física, o qual tem backup em área geograficamente separada da instituição.

Por fim, a disseminação e a comunicação são passos finais que elevam o conteúdo informacional para acesso público. Todas as informações levantadas, processadas e armazenadas pelo setor de documentação da Casa de Portinari contribuem para a formação da exposição de longa duração ou de exposições temporárias, além de atividades e oficinas aplicadas aos mais diversos públicos. Também é combustível para o trabalho dos profissionais do setor educativo, os quais lidam diariamente com o público escolar e espontâneo e dos profissionais da comunicação que lidam com o público virtual. Na realidade, nesta ponta do iceberg, não são raras as vezes que a interação com o público retroalimenta a documentação museológica, gerando novas perspectivas e possibilidades. Na Casa de Portinari, ainda muitos visitantes relatam terem convivido no passado com a Família Portinari ou que têm informações sobre determinado objeto do museu que um ente querido também possuía ou ainda possui, surgem aqueles que têm o desejo de doar alguma peça que eventualmente se relacione com a proposta do museu. Essas informações são encaminhadas para o setor de documentação, o qual reiniciará o fluxo de trabalho, gerando novos resultados.

Conforme Angelica Fabbri e Cecília Machado (2010, p. 27)[6]defendem,

não há como desenvolver nenhum trabalho nos museus se a documentação do acervo e sua pesquisa não estiverem atualizadas e consolidadas, pois delas emanam as linhas programáticas de exposições, ação educativa, publicações, intercâmbios, dentre outras possíveis frentes de atuação do museu.

Éalgo semelhante a um coração: “escondido”, que não para e que alimenta todas as demais áreas do corpo, mas que sempre recebe de volta aquilo que enviou, carecendo de nova oxigenação.

 

 

[1] ACAM PORTINARI. Proposta de aditamento. Brodowski: ACAM Portinari, 2019 (documento interno).

[2] ACAM PORTINARI. Plano Museológico. Brodowski: ACAM Portinari, 2019. Disponível em: <https://www.acamportinari.org/wp-content/uploads/2018/05/MCP_plano_museologico_2018.pdf> Acesso em 23 out. 2019.

[3] ACAM PORTINARI. Programa de Acervo. Brodowski: ACAM Portinari, 2019 (documento interno).

[4] PADILHA, R. C. Documentação museológica e gestão de acervo. Florianópolis: FCC, 2014.

[5] COLLECTION TRUST. Spectrum 4.0.São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura; Associação de Amigos do Museu do Café; Pinacoteca do Estado de São Paulo, 2014

[6] FABBRI, Angelica; MACHADO, Cecília. Informatização dos acervos dos museus como ferramentas de acesso. In: Documentação e conservação de acervos museológicos: diretrizes. Brodowski: ACAM Portinari, São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, 2010.

 

 

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